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Cachaça: A trajetória do sucesso do mais brasileiro dos prazeres

Originária do Brasil, pouco depois da sua descoberta em 1500, a história da cachaça se confunde com a História do Brasil. Os protagonistas dessa invenção são a Cana-de-Açúcar, o Escravo Africano e o Imigrante Português que, juntos, numa Terra de Índios, criaram a bebida que mais simboliza o espírito descontraído do brasileiro.

Passando por altos e baixos, vivenciando nesses 500 anos situações políticas, econômicas e sociais positivas e negativas, que serviram para fortalecer a sua estrutura, a cachaça saiu da Senzala dos Escravos e hoje está presente em todas as Classes de Mesa do Mundo, principalmente nos Estados Unidos, Itália, Espanha, Portugal, França e Alemanha – o maior importador. No Brasil é a segunda bebida alcoólica mais consumida, o que a coloca na terceira posição entre os destilados mais preferidos do mundo.

Há várias versões que tentam explicar o surgimento do nome “cachaça”. A mais lógica afirma que o nome se origina do espanhol “cachaza” que, bem antes de 1500, na Península Ibérica, denominava uma bagaceira de baixa qualidade. A palavra “cachaça” pode ser considerada como um brasileirismo que teve o seu uso generalizado entre 1600 e 1700 para denominar a nossa Aguardente de Cana.

É muito provável que o surgimento da cachaça no Brasil tenha se dado antes da institucionalização do regime das Capitanias Hereditárias, em São Vicente, no ano de 1532 por Martin Afonso de Souza. Há registros de que em 1516 já havia significativa plantação de cana nas Sesmarias da Ilha de Itamaracá e do Canal de Santa Cruz, no litoral norte do Recife. A partir dessa época, começaram a se instalar os primeiros engenhos de açúcar no Brasil. Foi encontrado documento na alfândega de Lisboa registrando a chegada de um carregamento de açúcar, oriundo de Itamaracá, em 1526. Dessa forma, a cachaça teria surgido em algum engenho do litoral pernambucano entre 1516 e 1526.

Embora haja diferentes estórias para explicar como se deu o início da destilação da cachaça no Brasil, a mais coerente atribui a paternidade aos imigrantes portugueses. Conhecedores do processo de produção da bagaceira – destilado do mosto fermentado da do bagaço da uva – trouxeram alambiques de Portugal e passaram a destilar o resíduo do caldo-de-cana, utilizado para fazer o açucar, conhecido como”borra” ou “garapa azeda”, que deixava os escravos alegres e dispostos, devido, certamente, ao seu conteúdo alcoólico.

Com o tempo, a produção da cachaça se espalhou pelos engenhos de São Paulo e Pernambuco, saíndo das senzalas – habitação dos escravos – e invadindo as casas-grandes, tornando-se uma bebida comum e importante no Brasil-Colônia, não apenas por ser apreciada, mas também pelo seu papel econômico. Por concorrer com o Vinho do Porto e com a Bagaceira, a Coroa Portuguesa terminou por proibí-la durante um certo período no Brasil.

Durante os movimentos separatistas ocorridos no período da colonização portuguesa, a cachaça era simbolo de nacionalismo e de democracia.. Em 1789, durante o movimento da Conjuração Mineira, os intelectuais, sacerdotes e militares envolvidos consumiam cachaça para demonstrar patriotismo, renegando os produtos vindos de Portugal. Quando em Pernambuco rebentou a Revolução Pernambucana de 1817, a cachaça foi símbolo de protesto contra o domínio português. Os pernambucanos, imbuídos do seu típico nacionalismo, boicotaram os produtos oriundos do Reino, chegando até a substituir o pão pelo cuscuz e pela tapioca, para não consumir farinha de trigo.

Após a libertação dos escravos em 1888 – uma ação bem intencionada, porém mal planejada-, a cachaça passou pelo seu período mais triste, servindo, devido ao seu baixo custo, de alimento e lenitivo para os escravos que perambulavam pelas ruas sem ter mais o abrigo dos patrões. Esta época foi, sem dúvida, a responsável pela fama negativa e pela discriminação que, até há pouco tempo, acompanhou trajetoria a cachaça.

Após um longo período de decadência, durante o qual passou a ser vista com preconceitos, como bebida de “pinguços”, “páus-d’água” e “cachaceiros”, a cachaça teve nova ascenção, quando foi escolhida como a bebida oficial da Semana de Arte Moderna de 1922. A partir daí, passou a inspirar cantigas, trovas e rezas, sendo tema de sambas, frevos e serestas, como parte integrante da realidade histórica e social brasileira.

Desde a metade da década de 80, beneficiando-se dos avanços tecnológicos e da globalização da economia, das modernas iniciativas e técnicas agrícolas e produtivas, principalmente em Minas Gerais, a elaboração da cachaça experimenta avanços significativos em qualidade e apresentação. Hoje, como resultado da expansão desse movimento no âmbito nacional, a cachaça está ocupando espaço em bares e restaurantes do país, deixando para trás a pecha de bebida pouco nobre. Ao mesmo tempo, o exigente mercado internacional vem também se rendendo ao charme da mais brasileira das bebidas. Ao servir de base para aperitivos como batidas de frutas e a “Caipirinha”, que representa a descontração do povo brasileiro e o sabor nacional, a cachaça tornou-se mais um ícone do Brasil para o mundo, juntamente com o Carnaval e o Futebol.

Na Europa e, principalmente na Alemanha, a Caipirinha passou a fazer parte dos cardápios da maioria dos restaurantes, hotéis e bares, podendo ser consideranda como o drinque da hora, preferido pelo público de todas as idades. De forma silenciosa, percebe-se que a cachaça , na sua forma pura de consumo, passa a figurar entre os digestivos oferecidos nas cartas de bebidas, destacando-se entre os tradicionais, como conhaque, vodca, tequila e grapa, ganhando cada vez mais a preferência dos consumidores europeus, americanos e, pouco-a-pouco dos asiáticos.

À sua saúde!

Autor: Jairo Martins da Silva
São Paulo, 30.08.2008



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